sábado, 17 de maio de 2014

O coração disparado


Dando continuidade aos posts anteriores, trago, dessa vez, aos leitores adelianos, o prefácio do segundo livro publicado pela Adélia: O coração disparado - livro que, aliás, foi agraciado com o premio Jabuti, em 1978. O prefácio escrito por Affonso Romano de Sant’Anna, traz detalhes sobre o início da carreira da poetisa e um olhar equilibrado sobre a sua obra no cenário da literatura brasileira. Sem dúvida, um texto que daria muito o que falar em um grupo de pesquisa! Se quiser, deixe seu comentário a respeito e até a próxima!

Adélia: A mulher, o corpo e a poesia
 (Affonso Romano de Sant’Anna)
Não farei um prefácio acadêmico, ou, pelo menos, tentarei fugir ao máximo de uma conversa solene para instalar um clima semelhante ao criado pelos poemas de Adélia Prado. A rigor, quem poderia fazer um magnífico texto sobre essa poetisa, era Mário de Andrade. Mas houve um desencontro histórico. Nem o Modernismo teve o privilégio de ter Adélia Prado entre suas poetisas nem Mário de Andrade sobreviveu para nos ensinar a ver melhor as soluções para a poesia brasileira, prisioneira de falsos dilemas nesses últimos vinte anos. 
Isto posto, vou lembrando que há cinco anos recebi de uma desconhecida poetisa do interior de Minas um maço de poemas, entre batidos a máquina e manuscritos. Aquele era um período particularmente precioso e agitado para mim. No Jornal do Brasil mantinha o “Jornal de Poesia” recebendo uma média de dois mil poemas por mês. Na mesma época organizava a Expoesia 1 (PUC/RJ), Expoesia 2 (Curitiba) e a Expoesia 3 (Nova Friburgo). Estava, portanto, num mar de poesia, redescobrindo na escrita jovem um autêntico gesto de abertura estética e política que correspondia a outras “aberturas” no plano institucional. E eu ia lendo os textos da moça e me assustando e me entusiasmando. A danada tinha uma força estranha e o que escrevia escapulia do que eu conhecia em nossa poesia. 
Ora, nos últimos vinte anos a poesia brasileira tinha ficado esquartejada na disputa entre meia dúzia de grupos que se engalfinharam (dentro e fora do país) na luta pelo poder (literário). De alguma maneira era até monótono ler livro de poesia. A gente pegava um texto e só tinha duas alternativas: ou encontrava alguém filiado a uma das estéticas do momento ou então ia encontrar uma desinformação quase total do que fosse poesia. Entre os vanguardistas de um lado e os alienados de outro nada de muito relevante sucedia. Adélia, percebia-se, tinha feito suas leituras, transparecia uma coisa de Guimarães Rosa outra de Drummond, mas estava falando definitivamente na primeira soa. Assistente de história da filosofia na faculdade de Divinópolis, na hora de escrever não filosofava, seguia aquele conselho de Mário, caía de quatro, com todas as vísceras no chão. Vários poemas me comoveram. Falei com Marina. Não aguentei e telefonei para o Drummond: Mestre, acaba de aparecer uma poetisa no interior de Minas. E isto eu dizia como um astrônomo no observatório nacional, feliz com uma nova possibilidade de vida fora de mim, do que conhecia, do que lia. Li para ele aquele “Briga no Beco”. Tomei outras providências: separei alguns textos e mandei para a redação do Suplemento Literário de Minas Gerais. 
Daí para a frente as coisas assumiram a força que já tinham. Eu continuava em minha batalha pela poesia jovem e ia fazendo força para abrir espaço para a voz de uma nova geração. Um dia, Pedro Paulo de Sena Madureira, ainda então na Imago Editora, me anuncia evangelicamente que ia publicar um livro de uma poetisa do interior de Minas. Falei: só pode ser Adélia. Era. O livro já em fase final, em breve era lançado como merecia. Um esplêndido prefácio de Margarida Salomão, uma noite de autógrafos no Rio ao lado de Rachel Jardim e Antônio Houaiss, Adélia ali em meio àquele mundão de gente assinando livro até para Juscelino Kubitscheck. E veio um almoço para ela e José na casa de Drummond, outro lá em casa e coquetel no apartamento de Rubem Braga. E Adélia ali, inteira e mineira pedindo tantos autógrafos quantos dava. E veio notícia na TV, páginas em O Globo e na Nova, resenhas por toda parte. Lançamento em São e uma tremenda festa em Divinópolis. Adélia realizava aquilo que todo estreante sonha. Ela não precisava mais ser aquele que 
poeta obscuro aguarda a crítica
e lê seus versos as três vezes por dia,
feito um monge com seu livro de horas.
Podia, antes, cumprir aquela promessa: 
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama. 

Voltando a Divinópolis, cumprida a promessa, ela retorna: “Eu fiz um livro, mas oh meu Deus / não perdi a poesia”. E conclui reachando-se no seu cotidiano no interior de suas paisagens: 
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
Adélia, que já se definia como “mulher do povo”, que faz a própria comida, que aos domingos bate o osso no prato pra chamar o cachorro e atira restos, constitui um “caso” em nossa poesia. Não quero fazer aquelas frases de efeito, que depois são desmentidas pelo tempo. Frases como aquela que fizeram sobre Vinícius de Morais na década de 30 — de que ele era o último grande poeta modernista; frase que ele atualizou, e nos anos 70 passou para Gullar, com o mesmo exagero, ao dizer que o maranhense era o último grande poeta brasileiro. Isso lembra de alguma forma algo que Clarice Lispector vislumbrou: há frases que contêm mais beleza do que verdade. E porque pertenço eu também a uma civilização que se compraz em frases, vou lá cometendo o mesmo erro que incrimino: Adélia Prado é a Clarice Lispector de nossa poesia. Aproxima-as primeiramente este fato: ambas já nasceram (ou surgiram literariamente) com uma linguagem pronta. Mas isto não é tudo. Um escritor pode inventar um trejeito retórico, patentear isto e achar que tem uma linguagem. Falo aqui de algo comum às duas escritoras: aquela maneira de pegar a gente pelo pé e deixar a gente prostrado e besta com uma verdade revelada. Aquilo que se poderia chamar de “epifania” — a revelação abrupta de uma verdade desnorteante. Adélia pertence à raça dos mágicos e, diria, bruxos, se não a soubesse católica com uma fè de fazer inveja ao vigário. 
Pois bem. Naqueles idos de 1975 quando Adélia publicou Bagagem, fazia eu resenhas para a Veja, e indiquei algumas das características de sua poesia. Devia-se entender que o sucesso de Adélia não se devia somente às notícias, à ousadia do editor ou aos bons fluidos de sua presença física. Mas também e principalmente à força irracional e aliciadora de sua poesia. Porque o primeiro mérito de seus versos é pular por cima dessa poesia cerebral e enjoada que fez o Brasil nos últimos cinco anos e assumir um tom mágico e fantástico, que recria a vida no interior mineiro através de uma dicção inovadoramente feminina. 
Na verdade, trata-se da voz mais feminina de nossa poesia até hoje Adélia não usa uma linguagem de empréstimo ao, até hoje. Adélia não usa uma linguagem de empréstimo aos homens, nem repete pieguices em torno de imagens de noite-lua-canto-rosa-mar-estrela-solidão. Assim ela cruza os seus textos com os de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e Drummond, mas para assinalar uma diferença. Veja-se o antológico poema que abre seu primeiro livro: “Com Licença Poética”, onde retoma a personagem gauche de Drummond, mas para marcar pelo avesso a sua trajetória, mesmo sabendo ser esse um “cargo muito pesado pra mulher / esta espécie ainda envergonhada”. 
A verdade de sua experiência feminina é completada pela fidelidade à sua paisagem ambiental. Lá estão as comadres, as santas missões, as formigas pretas, o angu, as tanajuras, as pessoas na sombra com faca e laranja. Embora pudesse se mostrar pedantemente culta a autora se expõe visceral: “feito água no fundo da mina, levantando morrinho de areia”. Mais que meramente “feminina” e “telúrica” a poesia de Adélia vem do sertão. Do sertão não apenas como distância e mato, do sertão que deixa de ser mineiro para ser uma categoria cósmica. Exatamente como o mestre nesses assuntos, Guimarães Rosa, disse: há autores como Tolstoi, Goethe, Balzac, que nasceram no sertão. Ao passo que outros lógicos e racionais como Emile Zola vêm de São Paulo. 
Isto é o que eu dizia naquele artigo. E ainda assino. E se eu pudesse ir somando alguns aspectos dessa introdução eu diria: além do mérito de romper com as poéticas vigentes na época e instaurar seu próprio e único modo de dizer, a poesia de Adélia um aspecto do interior brasileiro, que é universal e foi praticamente desprezado até então. O Modernismo, realizando aquela desmontagem dos preconceitos e mitos sobre nossa “história”, desenvolveu o “poema piada”, que na verdade era uma forma perversa contra de interpretar o Brasil. Uma vingança do provinciano contra ele mesmo. Só aos poucos os nossos poetas foram aprendendo a amar o Brasil de uma forma menos adolescente, mais adulta. O próprio Mário de Andrade se penitenciou disto. E vejam a diferença entre os poemas irônicos de Drummond no princípio da obra e esses dos últimos livros, cada vez mais amorosos com a província, vendo coisas que o provinciano, ali, jovem e imaturo, não podia valorizar. 
Um dos problemas maiores para o artista é descobrir o que é seu e só seu, seu modo pessoal e intransferível de ver o mundo. Me lembrava Autran Dourado, certa feita, que havia lido um poema de vanguarda de um poeta (também do interior de Minas), de uma dessas cidadezinhas realmente mínimas, onde talvez pouco mais houvesse que um jornal e a luz de gás neón na praça. Pois o poeta começava dizendo: chega de cibernética! Parecia um poeta em Nova York. 
Adélia, não. Está ali pisando no seu chão. Com um caderno de poesia ao lado do fogão. Dizendo aquelas coisas que não fica muito bem a um intelectual dizer: “Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais / e não me canso de esperar”. Ali vai sentindo “o cheiro da flor de abóbora”, onde “o perfume das bananas é escolar e pacífico”. Olhando o mundo grande a partir de seu pequeno mundo ela é uma ponte entre os seus e o resto: 
Dos meus, só eu conheço o mar.
Conto e reconto, eles dizem “anh”
E continuam cercando o galinheiro de tela.
Essa poetisa, que está exorcizando a província de suas vergonhas, também se rejubila com a condição daquelas que descobrem a alegria da vida nos menores e “desprezíveis” afazeres do dia-a-dia: 
Exibo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas
                                                                          dignas
não recusam casamento, antes acham o sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no
                                                                          cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.
Já estou por aí começando a comentar a terceira característica que me agrada nessa poesia. Além de ter instalado Uma linguagem sua e além de ter se enraizado em sua paisagem natural, Adélia descobre a mulher concreta dentro de si mesma, além das ideologias, além dos preconceitos, e assume uma eroticidade que, de repente, faz ressaltar a eroticidade ausente de nossa "poesia feminina" convencional. Nesse sentido, ela, lá em Divinópolis, está ao lado das mulheres de sua geração, redescobrindo a seu modo um espaço erótico e vital, que algumas poetisas jovens, ligadas ao que se convencionou chamar de "poesia marginal", também andam fazendo: a redescoberta de uma linguagem que se afasta da maneira masculina de ver o mundo, um modo de escrever sem pedir de empréstimo os lugares comuns da ideologia social e literária. Não e só a maneira de dizer, é a maneira de sentir, que as duas coisas vem juntas: 
Até hoje sei quem me pensa
com pensamento de homem!
A parte que em mim não pensa e vai da cintura aos
                                                                       pés
reage em vagas excêntricas,
de um vulcão que fosse ameno,
me põe inocente e ofertada,
madura pra olfato e dentes,
em carne de amor, a fruta.
Trata-se de ir descobrindo, mais que isto, des-velando o sexo das trapaças cotidianas e recolher a todo instante a vida que recalcamos. Imaginem uma poetisa-de-bom-tom, há alguns anos, dizer uma coisa dessas:
fazia tarde bonita quando me inseri na janela entre
                                                                meus tios
e vi o homem com a braguilha aberta
o pé de rosa-doida enjerizado de rosas
Sexo é o que há de mais cotidiano. Daí que na modernidade dessa poesia não se espera o surgimento de cavaleiros conduzindo rosas em cavalos medievais vitoriosos. A mulher está ali olhando um homem comum – um rapaz que palita os dentes, só tem escola primaria, fala errado, come bife com arroz, rodela de tomate,“mas tem um quadril de homem tão sedutor / que eu fico amando ele perdidamente”. E dessa liberação do desejo a quente confissão: 
Ele esgravata os dentes com o palito.
Esgravata é meu coração de cadela.
Essa é a mulher fêmea, mas que não pertence mais àquilo que ela chamou de “espécie ainda envergonhada”. E, ao meio-dia, a emoção surge não apenas ao nível da natureza, quando “ao meio-dia deságua o amor”, mas ao nível do natural: 
Quero braceletes
e a companhia do macho que escolhi.
Há dias me ocorreu uma observação. Onde está a família do poeta brasileiro? Aliás, onde está a família dos escritores e artistas em geral? Onde está a mulher e onde está o marido? Existem? O que vemos são muitas noivas e noivos, amantes, muitas. Mas cadê a casa, amor, esposa, cadê esse mundo burguês que a maioria de nós coabita? De repente, me parece que Adélia é a primeira poetisa brasileira que tem marido e filhos, que cuida da casa, tira poeira, traz legumes da horta e tem alucinações eróticas. Na poesia, em geral, o que há é a descrição da família anterior do poeta: a mãe, que morreu e era uma santa; pai também morto, que era um forte. A família é uma ausência. O poeta está preocupado com grandes temas: o povo, o futuro da sociedade e o futuro da poesia. O poeta surge usualmente como o des-família, o homem-ilha. Em Adélia também tem pai e mãe. Mas sobretudo tem lá o marido, a casa, seu corpo e sua relação mística e erótica com sua comunidade. Ela sabe que “a bacia da mulher é mais larga do que a do homem”: 
Me apaixono todo dia,
escrevo cartas horríveis, cheias de espasmos
como se tivesse um piano e olheiras,
como se me chamasse Ana da Cruz.
E o desejo se estende: 
Me tentam a beleza física, forma concreta de lábios,
sexo, telefone, cartas
o desenho amargo da boca do Ecce Homo.
E assim vai se desenvolvendo esse desejo entre místico mas sempre concreto: 
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelos detalhes das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.

Assim se poderia ler e ir citando, não achasse eu melhor próprio leitor descobrindo esse livro. Leiam aquele poema “Entrevista”, que começa assim: 
Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação, eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara: o destino do homem é a
                                                                santidade.
O que existe nessa poesia é uma contagiante alegria de estar viva, embora todas as perplexidades e um certo tom patético. Mesmo os "palavrões" surgem aí tão naturalmente que pode o leitor até nem percebê-los. E aí, aliás, outro traço de modernidade dessa poesia, valendo nova comparação: o Modernismo com todas as suas liberações não conseguiu ser licencioso a não ser com a gramática; o corpo foi pouco dessacralizado; a língua, embora cheia de solecismos e barbarismos, continuava casta e burguesa. Hoje, que o chamado palavrão entrou no cotidiano de nossa vida e as mulheres o usam, roubando mais um setor da linguagem que os homens controlavam, é natural que se escreva como se fala, porque se fala como se vive. 
Fazer prefácio ou apresentar um autor é um gesto perigoso. A gente pode atrapalhar a leitura alheia. E esse livro cresce mais a partir do prefácio. Este é um livro alegre, porque vital. Lírio e a esfuziante. Moderno e cotidiano. Real. Não tem o pecado da mentira, não tem o pecado da tristeza. Bem ela advertiria: 
Quisera lamuriar-me, erguer meus braços tentada
a pecar contra o Santo Espírito.
Mas a vida não deixa. E o discurso
acaba cheio de alegria. 

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