segunda-feira, 7 de julho de 2014

Adélia Prado: uma entrevista


Esta entrevista, concedida em Divinópolis, a 3 de fevereiro de 1995, foi feita originalmente para um número especial da revista espanhola El Urogallo (n° 110/111, Julho-Agosto de 1995), dedicado a artistas mulheres brasileiras. A versão publicada na revista é bastante condensada (cerca de 6 laudas). O texto que se segue é praticamente a transcrição integral da entrevista, editada apenas para evitar os excessos de coloquialismo. A entrevista foi realizada pelo professor Antonio Herculano Lopes, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, ator e diretor de teatro.

AH: Adélia Prado por Adélia Prado 
AP: Eu nasci aqui mesmo em Divinópolias em 35, sou filha de um ferroviário e de mamãe da casa, do lar, doméstica, sou a mais velha de oito irmão, não há tradição de escritores na minha família, eu comecei a linhagem. [ri] E... era uma vida muito ordinária. De extrema pobreza material, mas assim, muito rica do ponto de vista de relacionamento familiar, humano, uma família muito afetiva. meu pai era muito... pessoa muito calorosa, muito amorosa. Fiz curso primário, ginásio, fiz o curso de professora e mais tarde, quando eu já estava estava casada, com os filhos todos, eu cursei Filosofia. Eu e meu marido fizemos Filosofia. Eu era louca para estudar Filosofia e aparecendo a chance a gente fez. Aqui mesmo em Divinópolis. Nós começamos a faculdade em seu início, muito boa mesmo. Nós tivemos essa sorte de cursar Filosofia. O meu contato com os livros era que eu tinha uma atração pela palavra... pela palavra ritmada, pela Literatura... hoje eu sei que era Literatura o que me encantava.
 AH: Não tem uma história que você primeiro foi música e depois poeta?
 AP: Não, não, não. É porque um personagem meu era música, então todo mundo acha que eu entendo. Não sei nada de música. Meus meninos tocam violão, tocam piano, mas eu não. Eu gostava de decorar as poesias escolares, recitar essas poesias nos auditórios. Em festas cívicas, religiosas, eu estava lá na frente recitando e falando e achando bonito. Meu pai aplaudia muito. Ele sabia poesias de cor. Ele não tinha o curso primário.
AH: Aquele poema que você faz a citação... 
AP: "Recita aquela bonita..." 
 
A POESIA
Recita "Eu tive um cão", depois "Morrer dormir", ele dizia.
Eu recitava toda poderosa.
'Eh trem!' ele falava, guturando a risada, os olhos
amiudados de emoção, e começava a dele:
"Estrela, tu estrela, quando tarde, tarde, bem tarde,
brilhaste e envolveste o teu olhar para o passado,
recordas-te e dirás com saudade: sim, fui mesmo ingrato.
Mas tu lembrarás que a primavera passa e depois volta
e a mocidade passa e não volta mais".
A última palavra, sufocada. O que estava embaçado
eram seus óculos. Ó meu pai, o que me davas então?
Comida que mata a fome e mais outras fomes traz?
Eu hoje faço versos de ingrato ritmo.
Se o ouvisses por certo me dirias com estranheza e amor:
'Isso, Delão, isso!' O bastante para eu comer recompensada.
Agora as boas, pai, agora as boas:
"Eu tive um cão", "Estrela, tu estrela".
"Morrer dormir, jamais termina a vida!",
jamais, jamais, jamais.
Adélia Prado

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